segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Queda na Selic desabasteceria mercado e provocaria inflação

Com perfil mais conservador, um jovem profissional procura maneiras de fazer seu dinheiro render com segurança. Decide reservar uma pequena parcela de seu salário para investir em títulos do governo. É quando a taxa Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), base de todo o mercado financeiro brasileiro, despenca de cerca de 7% para 5%. A situação é hipotética - os resultados reais, no entanto, seriam desastrosos.

Índice responsável por guiar todas as taxas de juros cobradas no mercado, a Selic é um importante instrumento de controle da inflação. Por conta disso, há um cuidado extremo com sua manutenção. Segundo o professor de Economia da ISAE/FGV Robson Gonçalves, é impossível que a taxa caia abruptamente. Ele explica o motivo: "Se a taxa de juros se torna menor do que a de inflação, de cerca de 6%, o poupador está sendo penalizado. Alguém que aplica seu dinheiro a uma taxa de juros nominal de 5% e retira esse dinheiro um ano depois com uma inflação acima disso, certamente vai perder dinheiro", diz. Em um cenário onde não vale a pena aplicar o dinheiro, as pessoas decidem gastar no comércio. "Se o indivíduo tem dinheiro na mão e não está valendo a pena investir em aplicação, por que guardaria esse dinheiro? É por isso que acabaria desviando esse capital para o consumo, o que forçaria de forma direta a inflação", explica o coordenador do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina (FASM-SP), Reginaldo Gonçalves.

O grande problema, segundo especialistas, é a falta de estrutura do mercado brasileiro. Robson acredita que as indústrias não dariam conta de um aquecimento brusco no setor de comércio. "Para um país que já tem carências grandes em infraestrutura, isso provocaria problemas na produção. É um efeito espiral que torna poupar menos favorável. Uma taxa de juros abaixo da inflação faz sentido em um país em crise profunda, como Estados Unidos e Japão, mas não aqui", compara.

Queda diminuiria entrada de capital estrangeiro especulativo
Já o setor de exportação poderia se beneficiar da nova situação - ainda que não com tanta intensidade. O economista da ISAE/FGV explica que, ainda que apresentasse queda, a Selic ainda torna o Brasil um dos países mais interessantes para se investir. "A taxa daqui seria cinco vezes maior do que a de países como Estados Unidos e Japão. O que aconteceria seria uma redução no ingresso de capital especulativo, mas não de capital produtivo. Por isso o efeito não seria tão dramático em termos de câmbio", diz.

Já Reginaldo aponta prováveis mudanças na cotação caso a queda se confirmasse. "No capital estrangeiro, há aqueles investidores que buscam, dentro do Brasil, segurança e investem em empresas e organizações. Esses vão continuar investindo, porque nossas empresas continuam com uma alta capacidade de geração de resultados", afirma, reforçando a ideia de que o investimento em capital especulativo perderia força. Por conta disso, com menos dólares em solo brasileiro, a cotação da moeda americana tenderia a subir - beneficiando quem vende lá para força. O efeito, contudo, poderia ser um tiro no pé da economia. Para os especialistas, a exportação acabaria desabastecendo ainda mais o mercado, reforçando a inflação, tal qual uma bola de neve.

Mas os investidores podem ficar tranquilos. Tanto Reginaldo quanto Robson afirmam que a hipótese não se confirmaria. "Não é possível, na situação em que estamos, o governo tomar medidas drásticas de redução da taxa, pois a inflação já está chegando no limite máximo, de 6,5% ao ano. Uma queda abrupta faria com que o governo corresse uma série de riscos, principalmente na área de investimentos", diz o professor da FASM-SP. Robson complementa: "Quando a taxa de inflação começa a subir, é hora de parar de cortar a taxa de juros. O Banco Central já vem percebendo que é hora de mais cautela, para não termos alta na inflação", destaca.

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