Perda de acesso ao adiantamento sobre contrato de câmbio inibe interesse de grandes empresas
Cristina Ribeiro de Carvalho
ccarvalho@brasileconomico.com.br
Implantado em 2008 no comércio bilateral entre Brasil e Argentina, o sistema de pagamentos em moeda local (SML) deve ser adotado em breve também nos negócios com Uruguai. O projeto, que tramita na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), tem como objetivo alavancar as transações comerciais entre os dois países, reduzindo os custos dos contratos. Entretanto, especialistas avaliam que esse sistema deve atrair mais as pequenas e médias empresas do que as grandes — que são responsáveis pela pauta dos principais produtos exportados (veja quadro abaixo). O SML permite que o comércio de produtos seja feito em moedas vigentes dos países, sem a necessidade de sua troca pelo dólar.
“Depois de quatro anos em vigor, o comércio entre Brasil e Argentina por meio desse sistema representa apenas 3% das transações comerciais”, revela José Augusto de Castro, ponderando ser este um termômetro para as trocas com o Uruguai. O especialista explica que isso acontece porque ao aderir a essa modalidade as empresas deixam de ter acesso ao adiantamento sobre contrato de câmbio (ACC)—operação que antecipa o recebimento dos valores do contrato, que é utilizado principalmente como capital de giro. “Tirar o ACC é o mesmo que eliminar recursos financeiros.
A partir desse momento, as grandes empresas têm de se financiar com recursos próprios. Liquidez que muitas vezes não existe”, explica Castro. Alberto Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira, conta ainda que há falta de interesse das instituições financeiras em fazer esse tipo de operação, já que a não transação em dólar oferece menos rentabilidade ao banco. Contudo, o governo brasileiro vem argumentando que o sistema tem aumentado o nível de participação de pequenos e médios exportadores e importadores de ambos os países, o que para José Augusto de Castro, da AEB, faz sentido. “O SML pode ter uma apelo maior entre as pequenas e médias empresas. Como elas têm dificuldade de acesso ao mercado externo, essa medida passa a ser um facilitador para a exportação de seus produtos, principalmente alimentos, móveis e calçados”, explica.
O vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Uruguai, Williams Gonçalves, é da mesma opinião de Castro, mas observa que a participação pequena das PMEs no comércio com o Uruguai ainda é pequena. “As pequenas empresas não têm essa cultura. Isso é algo que precisa ser mudado e só será possível com mais informações sobre o SML e comércio exterior. Falta divulgação sobre o tema”, reclama. Em 2012, Brasil exportou para o Uruguai US$ 2,18 bilhões (veja mais na arte abaixo). Apesar da falta de conhecimento que as PMEs têm sobre o tema, Gonçalves se mostra muito entusiasmado com a possibilidade de o SML ser contemplado nas transações comerciais entre os dois países. De acordo com ele, o Brasil pode ser muito beneficiado com aquisição de produtos uruguaios, como alimentos e principalmente insumos para a indústria naval. “A produção dos estaleiros brasileiros está aquecida e sem condições de ser suprida pela oferta nacional. Diante desse cenário, o Uruguai é certamente um parceiro complementar a cadeia produtiva brasileira”, argumenta.
Já a especialista em comércio exterior da FGV Lia Valls, argumenta que a viabilidade deste sistema depende da confiança dos agentes do mercado nas moedas em que estão transacionando seus produtos. “É um meio que exige confiança mútua”, finaliza. ¦
| |
| Fonte: Brasil Econômico |
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Uso de moeda local no comércio exterior beneficia PMEs
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário